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"A Tentação de Santo Antão", de Lovis Corinth, 1897. Santo Antão do Deserto (251-356), fundador do eremitismo cristão, é assediado por súcubos - embora, na lenda original, fosse atormentado por íncubos na forma de faunos e centauros

"Súcubo seduz monge em sonho", ilustração de "Exhortatio ad monachos", sec. XII, Silos, Espanha.

Um íncubo (do latim incubus, "que se deita sobre/dentro"), originalmente um gênio da sexualidade da mitologia romana análogo aos faunos e silvanos, tornou-se no cristianismo um demônio em forma masculina que, de acordo com tradições religiosas, mitológicas ou lendárias, se deita sobre pessoas que dormem e fazem sexo com elas.

Súcubo (do latim succubus , "que se deita debaixo") é um termo adotado pelo latim eclesiástico a partir do século XIV para demônios que têm relações sexuais com homens na forma de mulheres. Deriva do latim antigo succuba, "concubina" ou "prostituta" - teólogos cristãos adotaram o gênero masculino por acreditar que o súcubo nada mais é do que um íncubo (que na concepção cristã não tem corpo nem sexo real) quando adota aparência feminina. Assim, "súcubo" é sempre uma palavra de gênero masculino, apesar de se referir a um ser de aparência circunstancialmente feminina, mas "súcuba", no feminino, é um termo mais adequado quando se concebe essas entidades como sendo realmente ou permanentemente fêmeas, como geralmente acontece nas concepções do judaísmo e da ficção moderna (embora as lilin, súcubas do judaísmo, façam questão de se deitar por cima).

Na literatura fantástica e erótica moderna, essas entidades não são necessariamente malignas ou demoníacas e mais frequentemente buscam sexo com humanos para se alimentar de energia sexual, numa forma relativamente amena de vampirismo. Em geral se supõe que a sexualidade de íncubos e súcubos é real e permanente, mas surgiu nesse contexto a palavra côncubo (da construção pseudolatina concubus, "que se deita junto") para designar a concepção de uma entidade que pode adotar qualquer sexo.

As supostas fontes bíblicas[]

As primeiras menções a algo parecido com íncubos e súcubos vem da Lista dos Reis Sumérios, datada do início do reinado de Utuhengal de Uruk (r. c. 2055  a.C. – 2048  a.C.). Nela, o pai do herói Gilgamesh é listado como um Lilu, demônio que assedia pessoas durante o sono e lhes causa doenças, cuja versão feminina é Lilitu ou Lili.

"Os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram bonitas e escolheram para si aquelas que lhes agradaram", Ilustração de 1852-60 por Julius Schnorr von Carolsfeld para Die Bibel in Bildern

"Amor Imortal" (1923), de Daniel Chester French

Segundo os primeiros versículos do capítulo VI do Gênesis, antes do Dilúvio, "Quando os homens começaram a multiplicar-se na terra e lhes nasceram filhas, os filhos dos deuses (bnei ha'elohim) viram que as filhas do homem (banot ha'adam) eram bonitas e escolheram para si aquelas que lhes agradaram (...) Naqueles dias havia nefilins (nefilim, "caídos" ou "derrubadores") na terra, e também posteriormente, quando os filhos dos deuses possuíram as filhas do homem e elas lhes deram filhos. Eles foram os heróis (gibborim, "poderosos" ou "gigantes") do passado, homens famosos".

O significado original dessa passagem é controvertido. No livro de Jó, o satã que se propõe a testar a fé do personagem-título é apresentado como um dos beney' elohim, mas teólogos modernos querem crer que, no Gênesis, "filhos de Deus" são os descendentes de Set e "filhas do homem" as descendentes de Caim, mas parece mais razoável supor que o original recordasse mitos politeístas como o de Gilgamesh ou aqueles da Grécia, nos quais mulheres humanas engravidadas por deuses davam à luz semideuses de força extraordinária e grandes façanhas ("derrubadores", "poderosos"), pois bnei ha'elohim pode ser entendido como "deuses" tanto quanto banot ha'adam pode ser entendido como "mulheres".

Entretanto, antes das releituras racionalistas da Idade Moderna, a maioria dos intérpretes judeus e cristãos acreditava que os bnei ha'elohim eram anjos caídos, ou seja, demônios e que os nefilins eram gigantes literais, dando aparente respaldo bíblico à ideia de que íncubos podiam ter relações sexuais com mulheres e engravidá-las.

Outra passagem bíblica de significado duvidoso associada aos íncubos estão em Isaías 13:21 "Mas as criaturas do deserto lá estarão, e as suas casas se encherão de chacais (siyim em hebraico, draconibus, "dragões", na tradução da Vulgata Latina); nela habitarão corujas (ohim em hebraico, struthioni, "avestruzes", na Vulgata) e saltarão bodes selvagens (sa'irim em hebraico; pilosi, "peludos", na tradução da Vulgata Latina)" e Isaías 34:14: "Criaturas do deserto (siyim em hebraico, daemonia, "demônios", na Vulgata) se encontrarão com hienas (iyim em hebraico, onocentauris, "onocentauros", na Vulgata), e o bode selvagem (sa'ir em hebraico; pilosi na Vulgata) balirá para o companheiro; ali também descansará a criatura noturna (lilith em hebraico; lamia na Vulgata) e achará para ela local de descanso". As traduções modernas preferem verter os termos duvidosos como nomes de animais reais, o que é o mais razoável no contexto de cidades abandonadas às feras do deserto, embora sa'ir e lilith, pelo menos, possam se referir a demônios em outros contextos. Entretanto, a Vulgata, tradução latina que predominou no Ocidente até o início da Idade Moderna, deu respaldo à crença em seres lendários, inclusive os pilosi, entendidos como sátiros, faunos ou íncubos e a lamia, entendida como sua versão feminina ou súcubo.

Íncubos no paganismo[]

Espelho de Praeneste, século III a.C. Íncubo se deita sobre uma noiva, observado por um deus da fertilidade, possivelmente Ínuo, enquanto outro íncubo salta à direita

Incubus, ou Íncubo ("que deita sobre", em latim) e Efialtes ("que pula sobre", em grego) eram os nomes romano e grego de gênios ou daemons do pesadelo, que se sentam no peito da pessoa que dorme e param a sua respiração. Estrabão cita Efialtes com Lâmia, Gorgo e Mormolice entre os bichos-papões para assustar crianças. Petronius descreve Íncubo como um gênio sentado sobre um tesouro - arrancar seu gorro e ele é seu. Moedas de Niceia Bitínia nos séculos II e III DC mostram Efialtes, com pernas de bode e usando um gorro. Plínio chama esses daemons de faunos e diz que peônias servem para afastá-los. No século I, o médico Soranus, ao discutir os sintomas de sufocação dos pesadelos, insistiu que Íncubo ou Efialtes não era um deus, mas uma doença, cujos sintomas eram palidez e sufocação.

Na arte etrusca, figuras semelhantes a íncubos aparecem associados a divindades da fertilidade, Ínuo, Pã, Fauno ou Silvano. Um espelho de bronze etrusco encontrado em Praeneste, atual Palestrina, no Lácio, Itália, provável presente de casamento, parece retratar uma cena de noite nupcial, na qual um possível íncubo peludo, se deita sobre uma noiva nua à esquerda, observado por uma figura de chifres e tirso, o deus Ínuo ou Pã Liceu, apontando-lhe o que deve fazer. Outro íncubo, que salta , representaria Efialtes.

A cena pode aludir a um mito esquecido ou a um ritual análogo à Lupercália, no qual jovens sacerdotes chicoteavam mulheres da nobreza com tiras de pele de bode para supostamente torná-las férteis. Segundo uma lenda, Juno teria instituído o ritual após uma epidemia de abortos e natimortos, dizendo que "o bode sagrado tem que entrar nas mulheres de Roma". Os íncubos seriam, nesse caso, gênios da fertilidade a serviço de Ínuo, que causariam pesadelos, doenças e abortos se não fossem convenientemente festejados.

Íncubos no cristianismo[]

"Como Merlin foi gerado pelo diabo", ilustração de "Lancelot en prose", c. 1489, norte da França.

"Mulher e diabo se abraçam", xilogravura em De Ianiis et phitonicis mulieribus ("Sobre Bruxas e Adivinhas"), tratado de bruxaria de Ulrich Molitor, c.1489

O filósofo cristão Agostinho de Hipona trata dos íncubos em De Civitate Dei ("A Cidade de Deus"): "Há também um boato muito geral. Muitos o verificaram por sua própria experiência e pessoas de confiança corroboraram a experiência que outros contaram, de que silvanos e faunos, comumente chamados de íncubos, costumam fazer ataques perversos às mulheres." Assim, crenças do paganismo greco-romano sobre gênios ou daemons da natureza foram reinterpretadas como referindo-se a demônios cristãos.

Crenças análogas de origem pré-cristã de outras partes da Europa foram igualmente enquadradas no modelo cristão. Em muitas partes, se acreditava que crianças com deficiências mentais ou com aparência ou comportamento estranhos eram filhas de seres mágicos, que trocavam bebês humanos por seus próprios filhos. Uma criança supostamente nascida de um ser feérico ou, mais tarde, de um demônio, foi outrora chamada em inglês de oaf ou auf, do nórdico antigo alfr, "elfo", e mais tarde usou-se changeling. Em francês, dizia-se chanjon ou changeon. Na interpretação cristã, essas crianças eram consideradas filhas de íncubos, mas o termo pseudolatino cambiones (cambions em inglês, "cambiões" em português) foi usado para eles, mantendo a ideia de troca do baixo latim cambiare.

Geoffrey of Monmouth, na Historia Regum Britanniae (escrita por volta de 1136), afirmou que o mago Merlin nascera da filha de um rei e de um íncubo. Crença semelhante existiu em relação a Roberto do Diabo, cavaleiro que, segundo uma lenda registrada pela primeira vez por volta de 1250 e foi transformada em ópera por Giacomo Meyerbeer em 1831, era filho de um íncubo e uma duquesa normanda e tinha força e coragem excepcionais, mas era extremamente perverso. Mais tarde se arrependeu de suas maldades, fez penitência, lutou contra os sarracenos e morreu como santo. Numa variante datada de 1400, o cavaleiro se chamava Sir Gowther, era meio-irmão de Merlin por parte de pai e foi Duque da Normandia e depois de fazer penitência e ajudar a vencer as forças do sultão, se casou com a filha do Imperador e herdou a coroa do Sacro Império Romano.

O Malleus Maleficarum (1487), manual da Inquisição, chama os supostos filhos do demônio de campsores ("cambistas") or Wechselkinder ("crianças trocadas" em alemão). Segundo o livro, o exorcismo é uma das cinco formas de superar os ataques dos íncubos, sendo as outras a Confissão Sacramental, o Sinal da Cruz (ou recitação da Saudação Angélica), a transferência dos aflitos para outro local e a excomunhão da entidade atacante, "que talvez seja o mesmo que exorcismo". O íncubo, segundo se acreditava, podia ser identificado por ter um pênis extraordinariamente grande e frio. Muitas mulheres diziam ter sido assediadas ou violentadas por íncubos, mas se supunha que as bruxas os procuravam e que algumas mulheres sem filhos, como a mãe de Roberto do Diabo, pediam ao diabo que lhes concedesse a gravidez que não tinham conseguido com suas orações aos santos e a Deus.

Alguns teólogos cristãos, inclusive Martinho Lutero e Jean Bodin, acreditavam que demônios podiam engravidar mulheres, mas seus filhos teriam uma vida curta e seriam ineptos, conforme a crença folclórica sobre os changelings. Outros, como Francisco Valesio, Tomaso Malvenda e Johann Cochlaeus, conforme a interpretação tradicional dos "nefilins" bíblicos e as fantasias dos romances de cavalaria, pensavam que filhos de íncubos poderiam ser personagens importantes como Átila, Melusina, Martinho Lutero e o futuro Anticristo.

Súcubos no cristianismo[]

"Bacanal", de Giulio Sanuto, c. 1550. Um sabá de íncubos e súcubos, representados como hermafroditas - principalmente a terceira figura à direita, com seios, pênis e testículos que parecem tetas

"Ninfa e Sátiro", 1500-1530. Íncubo, imaginado como um fauno que segura um frasco com sêmen recolhido de um homem, aparentemente trazido no odre a seus pés. Não está claro se a figura de ninfa representa sua forma feminina ou a mulher a ser inseminada

Que demônios pudessem ter relações sexuais com homens não parecia uma questão que merecesse grande atenção dos teólogos do início da era cristã, mas a crença em íncubos capazes de engravidar mulheres criou dificuldades para os teólogos, que não sabiam explicar como um demônio ou anjo caído, na concepção cristã um puro espírito sem sexo que podia apenas criar ilusões ou construir um simulacro temporário de um corpo vivo, poderia fecundar uma mulher de forma não ilusória. Na Suma Teológica, escrita entre 1265 e 1273, Tomás de Aquino concluiu que o demônio toma a forma de mulher para recolher o sêmen de um homem e depois o usa para inseminar uma mulher como íncubo. Essa forma foi, no século seguinte, designada como "súcubo".

Em 1599, o rei protestante Jaime VI da Escócia e Jaime I da Inglaterra, protestante, em sua dissertação intitulada Daemonologie, sugeriu que um demônio teria dois métodos de engravidar mulheres: ou roubar o esperma de um homem morto para usá-lo em uma mulher, ou possuir o cadáver de um homem para fazê-lo se levantar e ter relações sexuais com uma mulher. A novidade dessa interpretação foi isentar o sexo masculino de culpa: não seria necessário, para fecundar a mulher, que o demônio tivesse feito, primeiramente, sexo com um homem como súcubo.

Súcubas e íncubos no judaísmo[]

"Lilith", 1993, Lilian Broca

Ao contrário do cristianismo, o judaísmo se preocupa mais com súcubas (lilin, singular lilit) do que com íncubos (liliot, singular lilu). Na tradição judaica, elas têm corpos, embora sutis, e nascem, se reproduzem e morrem como seres vivos. Supõe-se que as primeiras e mais poderosas nasceram ou foram criadas na origem dos tempos e viverão até o Juízo Final, mas morrem cem lilin por dia. Entretanto, elas necessitam de sêmen humano para se reproduzir e por isso assediam homens sozinhos durante o sono. Assim, são os sonhos eróticos e as poluções noturnas de rapazes e homens que criam ansiedade, porque supostamente contribuem para a multiplicação dos demônios.

Na tradição cabalística, demônios assim nascidos de um homem são chamados seus banim shovavim ("filhos travessos"). Quando o homem morre, acompanham o funeral para lamentar a perda do pai, reclamar sua parte da herança e atacar os filhos legítimos. Daí o costume judeu de circular os mortos no cemitério para repelir os demônios. Desde o século XVII, algumas comunidades não permitem que os filhos acompanhem o cadáver de seu pai ao cemitério para evitar que sejam feridos por seus meios-irmãos ilegítimos.

Três classes de demônios são mencionados no Talmude: espíritos (ruach), diabos (shedim) e súcubas (lilin). Os primeiros não têm corpo nem forma; os segundos aparecem em forma humana completa; as terceiras em forma humana, mas com asas. Numa tradição talmúdica, na primeira tarde de sábado, no crepúsculo, quando Deus dava os últimos retoques na criação, começou a criar os demônios que, embora incluídos no plano, ficaram para o final. Ele não havia progredido além da formação de suas almas, entretanto, quando o sábado chegou e foi obrigado a descansar. Por isso, os demônios não têm corpos, mas são constituídos inteiramente de espírito. Alguns falam de uma quarta classe de demônios, os mazzikim, surgidos dos espíritos de homens maus após sua morte, mas para outros o termo é sinônimo de shedim.

Entretanto, a crença mais generalizada é que ao menos alguns dos demônios têm alguma espécie de corpo e são meio humanos. A explicação talmúdica foi dada pelo rabino Jeremiah ben Eleazar no século II: "Quando [Adão] viu que por meio dele a morte foi ordenada [à humanidade], como punição ele passou cento e trinta anos em jejum, cortou a ligação com a esposa por cento e trinta anos e vestiu roupas de folhas de figueira por cento e trinta anos. Em todos aqueles anos durante os quais Adão esteve sob a proibição, ele gerou fantasmas, diabos e súcubas, pois é dito na Escritura que Adão viveu cento e trinta anos e [só então] gerou um filho à sua semelhança, segundo a sua própria imagem, portanto se conclui que até aquele momento ele não gerava conforme a sua própria imagem". Acrescenta o comentário do Talmude que "essa declaração [do rabino Jeremias] foi feita em referência ao sêmen que ele emitiu acidentalmente".

"Lilith com Bebê e Ninho", 1995, Lilian Broca

Foi durante o período geônico (589-1038) que Lilith desenvolveu sua reputação de atacante de bebês recém-nascidos e de suas mães, sedutora de homens e ancestral das lilin e dos liliot. É descrita como uma mulher sedutora de cabelo comprido, rainha de zemargad (das esmeraldas) e às vezes identificada com a rainha de Sabá que visitou o rei Salomão. Ahriman, o supremo demônio persa, seria seu filho. Vagueia à noite e se agarra a qualquer um que durma sozinho. "O Senhor te abençoe e te guarde", de Números 6:24 aludiria às lilin. O rei Salomão, que comandava os demônios, fazia as lilin dançarem para ele.

O Alfabeto de Ben Sira, escrito entre 700 e 1000, esclarece a origem de Lilith como sendo primeira esposa de Adão, que ao se recusar a se submeter a ele, tornou-se um demônio e foi substituída pela submissa Eva. Uma explicação posterior acrescentou que ela se entregou ao grande demônio Samael para não ser levada de volta a Adão pelos anjos, com base em Deuteronômio 24:2-4 ("Se, depois de sair da casa, ela se tornar mulher de outro homem, e o seu segundo marido não gostar mais dela, lhe dará certidão de divórcio, e mandará embora a mulher. Ou também, se ele morrer, o primeiro marido, que se divorciou dela, não poderá casar-se com ela de novo, visto que ela foi contaminada").

O Tratado das Emanações à Esquerda, do rabino Isaac (segunda metade do século XIII), uma das obras fundadoras da Cabala, aprofundou essa história e deu a Lilith uma importância ainda maior. Samael, o demônio supremo, e Lilith nasceram como um, assim como Adão e Eva, dois pares de gêmeos, um acima e outro abaixo. O pecado de Adão e Eva causou um despertar nos dois pares de "gêmeos", do qual a cobra, Nahasiel ou Gamliel, participou. Na literatura cabalística posterior, Samael tem quatro esposas - Lilith, Naamah, Eisheth Zenunim (ou Rahab) e Agrat bat Maḥlat, mães da maioria dos demônios. Segundo o rabino cabalista Hayyim ben Joseph Vital (1542-1620), as quatro rainhas dos demônios governam Roma (Lilith), Salamanca (Agrath), Egito (Rahab) e Damasco (Naamah).

Naamah ("Agradável") parece derivar da Naamá ou Naomi citada como descendente de Caim em Gênesis 4:22, que numa tradição judaica tinha a reputação de seduzir homens com címbalos. Ao seduzir os anjos Aza e Azael, teria gerado os espíritos (ruach) e as lilin.

Eisheth Zenunim (Mulher de Prostituição") surge no Zohar como ligada a Binah, a segunda sephira. O nome alternativo Raabe (Rahaḇ, "insolente") é usado no Salmo 89 e em Isaías 51 como alusão ao Egito e às vezes traduzido como "Monstro dos Mares", confundindo-o com o Leviatã. O nome em hebraico é diferente daquele de Raabe (Rāḥāḇ; "ampla"), a prostituta que ajudou os hebreus a conquistar Jericó no Livro de Josué.

"Visita Noturna de Lilith", 1994, Lilian Broca

De Agrat bat Maḥlat, conta-se que Maḥlat ou Maalate ("Lira") era uma filha de Ismael que foi exilada para o deserto, teve relações com o demônio Igrathiel e gerou Agrat ou Igrat (pode derivar do avéstico agra, "que fere", "perversa", do hebraico agrah, "recompensa", ou do hebraico iggeret, "carta") antes de se tornar uma das esposas de Esaú. Segundo lendas judaicas, Agrat gerou Asmodeu, o príncipe dos demônios, ao fazer sexo com o rei David e hoje é um "demônio dançante do telhado" que assombra o ar com um séquito de 180 mil mensageiras da destruição, cada uma das quais tem o poder de causar danos. The Encyclopedia of Spirits, de Judika Illes, cita um manuscrito do século XV que ensina como evocar uma bela lilit por meio de uma súplica a Agrat (é preciso saber o nome de uma das súcubas de seu séquito - fulana, filha de sicrana - e se preparar com roupas de cama limpas e um quarto perfumado). .

Íncubos e súcubas em crenças modernas[]

São comuns a muitas culturas as crenças sobre espíritos que perturbam pessoas durante o sono para lhes causar pesadelos, como a Pisadeira do folclore brasileiro, bem como a de seres sobrenaturais capazes de seduzir e engravidar mulheres, como o Boto ou de seduzir homens para matá-los ou enlouquecê-los, como a Iara. Entretanto, os íncubos e súcubas propriamente ditos, como demônios que assediam pessoas com perturbadores fantasias eróticas, sonhos eróticos e poluções noturnas, estão mais especialmente associados com as culturas judaico-cristãs e sua associação de sexo e erotismo com culpa e pecado mortal, ou mesmo (equivocadamente, segundo as concepções teológicas modernas) com o pecado original.

Embora hoje poucos acreditem que íncubos possam realmente engravidar mulheres, é comum em círculos fundamentalistas evangélicos, católicos ou judeus a crença em que íncubos e súcubos realmente assediam pessoas para tentá-las ao pecado e desviá-las do caminho da salvação, ou conforme crenças esotéricas influenciadas pelo cristianismo e pelas crenças supostamente científicas da medicina do século XIX e início do XX sobre os males da masturbação e da polução noturna, para absorver sua energia vital como vampiros espirituais.

Baixo-relevo de mármore "As Artes do Trivium e do Quadrivium: Naomi ensina (o filho) a ler e (seu meio-irmão) Jubal, o pai da música (que teria inventado)", na catedral de Orvieto, Itália

Por outro lado, há supostos manuais de feitiçaria modernos que ensinam aprendizes a invocar íncubos ou súcubos, presumivelmente para amenizar seu celibato involuntário. Um exemplo é Codex Succubi: The Flowers of Heaven, de "Brandon & Danielle" (Lesaile, 2013). Nessa concepção, íncubos e súcubos são descendentes de Naamá ou Naomi (do hebraico Na'amah, "agradável"), um ser feérico criado no Paraíso para servir Adão e Eva que quis segui-los quando foram expulsos. Os súcubos, inclusive Lilith, que teria sido sua primeira filha, seriam suas descendentes, diferentes dos verdadeiramente demoníacos íncubos, que seriam dos dois sexos. Isto contraria a concepção cabalística, na qual Naamá é um demônio feminino semelhante a Lilith e nasceu depois dela.

Íncubos, súcubas e côncubos na ficção moderna[]

Os olhos de Satã, em "O bebê de Rosemary"

Na arte e no cinema, íncubos às vezes aparecem no seu papel mais tradicional, como em O Bebê de Rosemary (Rosemary's Baby), romance de Ira Levin de 1967 adaptado para o cinema no ano seguinte por Roman Polanski. Uma jovem casada sonha ter sido estuprada por uma criatura enorme e desumana de olhos amarelos e encontra marcas de garras em seus seios e virilha na manhã seguinte, que o marido, que secretamente pertence a um culto satânico, encobre o que realmente aconteceu alegando que fez sexo com ela enquanto dormia "de uma forma meio necrófila". Ela fica grávida e por fim descobre que foi engravidada por Satã e seu filho está destinado a ser o Anticristo.

Em O Auto da Maga Josefa (2020), romance fantástico de Paola Siviero baseado no folclore nordestino, os detalhes da concepção não são explicados, mas a maga do título é filha do Diabo e, como o Roberto do Diabo da lenda medieval, quer escapar ao seu destino infernal.

Mais comum, porém, é que íncubos e súcubos sejam imaginados na ficção fantástica, erótica ou científica moderna como seres sedutores e atraentes que se alimentam por contato sexual. A concepção tomista de que súcubos se transformam em íncubos e vice-versa raramente é lembrada, mas não é raro que súcubas e íncubos modernos sejam homossexuais ou bissexuais. A ideia de "côncubos" surgiu em RPGs, para designar a ideia de seres (não necessariamente demoníacos), que podem mudar sua aparência e órgãos sexuais de acordo com a preferência de seus parceiros.

Súcubo extraterrestre (Mathilda May) de Lifeforce, sem nome, seduz o astronauta Tom Carlsen (Steve Railsback) para sugar sua energia vital

Um exemplo é Vampiros do Espaço (The Space Vampires, 1976), romance de ficção científica do britânico Colin Wilson, transformado em 1985 no filme britânico Força Sinistra (Lifeforce). Ao investigar uma nave alienígena escondida na coma do cometa de Halley, astronautas encontram dois machos e uma fêmea humanoides em animação suspensa e voltam com eles, que escapam e passam a assediar humanos para devorar suas almas, reduzindo-os a zumbis - sendo que a garota do espaço recorre à sedução para se aproximar de suas vítimas e pode abordá-las em sonhos. Na série Cassandra Palmer da romancista Karen Chance, iniciada em 2006, a personagem titular é uma clarividente que interage com o mundo dos espíritos, inclusive íncubos imaginados como demônios menores, que possuem pessoas para obter energia vital de relações sexuais com terceiros.

Sakuma decide cuidar de Yuu em Yuuutsu-kun to Succubus-san

Na ficção japonesa, criada num ambiente cultural não cristão ao qual a noção de pecado é estranha - há imoralidade e vergonha, por certo, mas não mácula sobrenatural a elas ligadas -, súcubas (sakyubasu) inspiradas pela ficção ocidental, geralmente perdem o caráter maligno e mortal para se tornarem garotas bonitas, que muitas vezes têm chifres e cauda e sugam energia vital, mas raramente são ameaças reais e mais frequentemente são personagens simpáticas.

Na novela (2004), mangá (2007) e anime (2007) shounen Good Luck! Ninomiya-kun (Goshūshō-sama Ninomiya-kun, "Minhas sentidas simpatias, Ninomiya-kun"), Mayu é uma súcuba enviada para viver com o protagonista Ninomiya Shungo para superar o medo dos homens. Por não controlar seus poderes, ela atrai homens como se fossem zumbis, mas os nocauteia quando chegam perto demais. Na novela (2012), mangá (2014) e anime (2016) shounen KonoSuba, súcubos são como prostitutas e oferecem sonhos eróticos aos clientes em troca de uma quantidade de energia que não chega a prejudicá-los. No mangá seinen Yuuutsu-kun to Succubus-san ("Senhor Depressão e Senhora Súcubo"), de 2015, a súcuba Sakuma chega à casa de um homem, ansiosa para sugar sua energia vital, mas ele, deprimido pelo excesso de trabalho, não sente desejo sexual e ela decide cuidar dele até sua vida melhorar o suficiente para que possa alimentá-la. Para ela, demonstrações de amor puro e casto são o cúmulo da perversão, enquanto assistir pornografia é saudável.

Shamiko (esq.) e Momo: um caso de amor entre uma súcuba e uma garota mágica em Machikado Mazoku

No mangá (2014) e anime (2019) seinen The Demon Girl Next Door (Machikado Mazoku, "Demônios da Esquina"), Yoshida Yūko é uma menina de 15 anos que um dia acorda com chifres e cauda e descobre ser uma súcuba, descendente de um Clã das Trevas amaldiçoado com a pobreza pelo Clã da Luz e que deve enfrentar o clã inimigo representado em sua cidade pela colega de escola e garota mágica Chiyoda Momo. As primeiras tentativas de Yūko de enfrentar Momo são tão patéticas que a garota mágica fica com pena e se dispõe a ensiná-la a lutar e usar seus parcos poderes mágicos, além de lhe dar o apelido de Shamiko (abreviação de Shadow Mistress Yūko, o título demoníaco dado a ela pela mãe). Como Momo é muito mais poderosa, Yūko é aconselhada pelo espírito de sua ancestral Lilith a invadir seus sonhos e tentar seduzi-la a se tornar sua vassala e integrante do clã dos demônios. A sedução funciona, mas se mostra uma via de mão dupla e as duas garotas desenvolvem uma relação carinhosa, Yūko se torna companheira inseparável de Momo e a ajuda a procurar sua irmã desaparecida, mas Momo deixa para se submeter a ela só quando Shamiko conseguir vencê-la em duelo, porque submeter-se a uma demônia tão fraca seria perder todo o seu poder.

Ver também[]

Fauno

Ínuo

Silvano

Salvagem

Demônios da Goécia

Familiares

Referências[]

  • The God of the Lupercal, T. P. Wiseman, Cambridge, 1995 [1]
  • THE INCUBUS AND ITALIAN RENAISSANCE ART [2]
  • The Folk Element in Judaism, Joshua Trachtenberg, The Journal of Religion

Vol. 22, No. 2 (Apr., 1942) [3]

  • Incubus-Succubus - Jewish and Christian Literature [4]
  • Jewish Encyclopedia: Lilith [5]
  • Jewish Magic and Superstition, Joshua Trachtenberg [1939] [6]
  • Childbirth and Magic In Jewish Folk Religion, 2014, William Bjoraker [7]
  • Jewish Concepts: Demons & Demonology [8]
  • Codex Succubi - Second Edition - Final.pdf [9]
  • The Encyclopedia of Spirits, Judika Illes, 2009 [10]
  • Wikipedia: Incubus [11]
  • Wikipedia: Robert the Devil [12]
  • Wikipedia: Sir Gowther [13]
  • Kosovia Wiki: Concubus [14]
  • Wikipedia: Rosemary's Baby (novel) [15]
  • Wikipedia: Rosemary's Baby (film) [16]
  • O auto da maga Josefa, Paola Siviero. Dame Blanche, 2020 [17]
  • Wikipedia: The Space Vampires [18]
  • Wikipedia: Lifeforce (film) [19]
  • Wikipedia: Cassandra Palmer series [20]
  • TVTropes: Horny Devils [21]
  • Wikipedia: Good Luck! Ninomiya-kun [22]
  • Wikipedia: KonoSuba [23]
  • Wikipedia: The Demon Girl Next Door [24]
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