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Cobra-grande em alegoria do Boi Caprichoso, Festival Folclórico de Parintins, 2007

Desenho no site Cryptomundo, alegadamente baseado em fotografia no Diário de Pernambuco de 24 de janeiro de 1948

A boiúna, de mboi, "cobra" e una, "negra", também conhecida como boiaçu, de mboi e açu, "grande", ou ainda cobra-grande é, segundo Câmara Cascudo, o mais poderoso e complexo dos mitos amazônicos, exercendo ampla influência nas populações às margens do rio Amazonas e seus afluentes.

Faz parte do ciclo dos mitos d'água, de que a cobra é um dos símbolos mais antigos e universais. Senhora dos elementos, a cobra-grande tinha poderes cosmogônicos, explicando a origem de animais, aves, peixes, o dia e a noite. Mágica, irresistível, polimórfica, aterradora, a cobra-grande tem, a princípio, a forma de uma sucuri ou uma jibóia comum. Com o tempo, adquire grande volume, abandona a floresta e vai para o rio. Os sulcos que deixa à sua passagem transformam-se em igarapés. Habita a parte mais funda do rio, os poções, aparecendo vez por outra na superície. É descrita como tendo de 20 metros a 45 metros.

Martius (Viagem pelo Brasil) registrou a força assombrosa do medo que os indígenas tinham do monstro, com as dimensões multiplicadas pelo terror. Chamavam-no de Mãe-d'água e Mãe-do-rio, mas as histórias só mencinavam a voracidade da cobra-grande, arrebatando crianças e adultos que se banhavam. Recusavam-se a matar a cobra, porque então era certa a própria ruína, bem como de toda a tribo.

Esse registro, de 1819, denuncia a existência de um outro mito entrevisto e anotado por Barbosa Rodrigues (Poranduba Amazonense), o da constelação do Serpentário (Ofiúco), que aparece no céu em setembro, o tempo das roças, princípio do tempo de Coaraci, o Sol. Couto de Magalhães ouviu a lenda de como a noite apareceu, numa época em que não havia noite, e a filha de Cobra-grande pediu a noite ao pai como presente de casamento.

Há ocasião em que nenhum pescador se atreve a sair para o rio à noite, pois duas vezes seguidas foi avistada uma Cobra-grande... pelos olhos que alumiavam como tochas. Os pescadores foram perseguidos até a praia, somente escapando porque o corpo muito grande encalhou na areia. Esses pescadores ficaram doentes de pânico e medo da experiência que relatavam com real emoção. (Eduardo Galvão, Santos e Visagens, Brasiliana, São Paulo, 1955).

Lendas da Boiúna[]

  • Em Belém, há uma velha crença de que existe uma cobra-grande adormecida embaixo da parte da cidade, cuja cabeça estaria sob o altar-mor da Basílica de Nazaré e o final da cauda debaixo da Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Outros já dizem que a tal cobra-grande está com a cabeça debaixo da Igreja da Sé, a Catedral Metropolitana de Belém, e sua cauda debaixo da Basílica de Nazaré: é o percurso da tradicional procissão do Círio de Nazaré, com 3,3 quilômetros de extensão. Os mais antigos dizem que se algum dia a cobra acordar ou mesmo tentar se mexer, a cidade toda poderá desabar. Por isso, em 1970 quando houve um tremor de terra na capital paraense, dizia-se que a tal cobra havia se mexido. Os mais folclóricos iam mais longe: "imagine se ela se acorda e tenta sair de lá!".
  • Em Roraima, conta-se que Cunhã Poranga ("índia bela") apaixonou-se pelo rio Branco e, por isso, Muiraquitã ficou com ciúme. Para se vingar, Muiraquitã transformou a bela índia na imensa cobra que todos passaram a chamar de Boiúna. Como ela tinha um bom coração, passou a ter a função de proteger as águas de seu amado rio Branco.
  • Entre as populações que habitam as margens dos rios Solimões e Negro, no Amazonas, acredita-se que quando uma mulher engravida de uma visagem, a criança fruto desse terrível cruzamento está predestinada a ser uma cobra-grande.
  • Há quem acredite que a cobra-grande pode nascer de um ovo de mutum.
  • Segundo uma lenda mais comum no Acre, uma cobra-grande se transforma numa bela morena nas noites de luar do mês de junho, para seduzir os homens durante os arraiais de festas juninas, como se fosse a versão feminina do boto.
  • O folclorista Walcyr Monteiro conta que em Barcarena (PA) existe o lugar conhecido como "Buraco da Cobra-Grande", atração turística do local.
  • Misabel Pedrosa diz que a Cobra-grande mora debaixo do cemitério do Pacoval, na ilha de Marajó.

Cobra-grande como navio encantado[]

Aparece sob diferentes aspectos. Ora como cobra preta, grande, de olhos luminosos como dois faróis, ora como embarcação a vapor ou a vela. Eduardo Galvão cofirma ter a Cobra-grande se tornado navio encantado. O poeta Raul Bopp assim interpretou a cobra-grande:

- Axi, cumpadre
arrepare uma coisa:
lá vem um navio
vem-que-vem-vindo depressa, todo alumiado.
Parece feito de prata...
- Aquilo não é navio, cumpadre
- Mas os mastros e as luises... e o casco dourado?...

Alguns contam que a cobra grande pode algumas vezes parecer um navio para assustar os ribeirinhos. Refletindo o luar, suas enormes escamas parecem lâmpadas de um navio todo iluminado. Mas quando o "navio" chega mais perto é possível ver que na verdade é uma cobra grande querendo dar o bote.

Cobra-Maria[]

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Cobra-Norato[]

Conta-se que uma índia engravidou da Boiúna e teve duas crianças: uma menina que se chamou de Maria e um menino chamado de Honorato ou Norato. Para que ninguém soubesse da gravidez, a mãe tentou matar os recém-nascidos jogando-os no rio. Mas eles não morreram e nas águas foram se criando como cobras.

Desde a infância os dois irmãos já demonstravam a grande diferença de comportamento entre eles. Maria era má, fazia de tudo para prejudicar os pescadores e ribeirinhos. Afundava barcos e fazia com que seus tripulantes morressem afogados. Seu irmão, Honorato, era meigo e bondoso. Quando sabia que Maria ir atacar algum barco, tentava salvar a tripulação. Isso só fazia com que ela o odiasse mais ainda. Até que um dia os irmãos travaram uma briga decisiva onde Maria morreu, tendo antes cegado o irmão.

Assim, as águas da Amazônia e seus habitantes ficaram livres da maldade de Maria. E Honorato seguiu seu caminho solitário. Sem ter quem combater, Honorato entendeu que seu fado já havia sido cumprido até demais e resolveu pedir para ser transformado em humano novamente. Para isso, precisava que alguém tivesse a coragem de derramar "leite de peito" (leite de alguma parturiente) em sua enorme boca em uma noite de luar. Depois de jogar o leite a pessoa teria que provocar um sangramento na enorme cabeça de Honorato para que a transformação tivesse fim. Foram muitas as tentativas, mas ninguém conseguia ter tanta coragem. Até que um soldado de Cametá, município do interior do Pará, conseguiu reunir coragem para fazer a simpatia. Foi ele quem deu a Honorato a oportunidade de se ver livre para sempre daquela cruel maldição de viver sozinho como cobra. Em agradecimento, Honorato também virou soldado.

A cobra de Fawcett[]

A sucuri gigante descrita por Fawcett, de 19 metros

O coronel britânico Percy Harrison Fawcett, explorador que realizou sete expedições na Amazônia de 1906 a 1925, relatou ter visto cobras gigantescas, ou seus indícios. Em um de seus diários, ele anotou, em 1907: "Estávamos calmamente seguindo a corrente preguiçosa, não longe da confluência do Rio Negro, quando quase sob o arco da igara apareceu uma cabeça triangular e vários pés de corpo ondulante. Era uma sucuri gigante. Corri para meu rifle enquanto a criatura fazia seu caminho rumo ao banco de areia e, quase sem esperar para mirar, disparei uma bala de ponta macia calibre .44 em sua espinha, dez pés (3 metros), abaixo da maldita cabeça."

O barco parou para que o coronel pudesse examinar o corpo. A despeito de ter sido mortalmente ferida, "convulsões subiam e desciam pelo corpo como golpes de vento em um lago de montanha." Embora não tivessem equipamentos para medições com ele, Fawcett estimou que a serpente tinha 19 metros de comprimento e 30 cm de diâmetro.

Nos pântanos de Madre de Diós, em Bení, Bolívia, Fawcett disse ter visto rastros de uma cobra que indicavam um comprimento de 24 metros.

A primeira cobra[]

Nesta lenda, conta-se a origem de uma autêntica cobra indígena, da mesma estirpe da Cobra-Grande, ser bruto e irracional que só pensava em comer e devastar. Eis como, segundo os índios kaiapós, a cobra veio ao mundo. A história começou quando um casal de índios, farto de viver na aldeia, resolveu emigrar para outras terras. Depois de muito andarem, acharam um lugar ideal e ali se estabeleceram. Certa tarde, o índio foi banhar-se num igarapé, que é um pequeno rio. Acontece que riozinho era encantado, e ele logo se viu transformado na primeira cobra do mundo. Ao retornar para casa, o homem-cobra deu um susto na mulher, que nunca tinha visto nada parecido na vida. – Socorro! Acuda, meu marido! – berrava ela, histérica. – Sossega, sou eu! – sibilou a cobra. A mulher custou a aceitar o fato de que teria de viver para sempre ao lado daquele ser horroroso que matava e comia os animais da mata. O tempo passou, e os índios da antiga aldeia mandaram um mensageiro saber o que fora feito do casal. O índio chegou e encontrou só a mulher. – Como estão as coisas? – disse ele. A mulher procurou sorrir e disse que ia tudo bem. Mas o mensageiro, sentindo que ela escondia algo, insistiu: – Onde está o seu marido? – O pobre morreu! – disse a índia. – Vamos, fale a verdade! – disse o mensageiro. Então ela confessou, de uma vez, que o marido virara uma cobra. Desta vez, a pobrezinha chorava de verdade. – Pois quero ver se é verdade! – disse o mensageiro, acomodando-se na rede. Dali a pouco, escutou-se o ruído de algo que se arrasta. Era a cobra de volta das suas matanças. A criatura havia aumentado dez vezes de tamanho desde o seu surgimento. O índio ficou tão apavorado que fugiu de volta para a aldeia. Dali a alguns dias, apareceu outro índio. – Quero ver como é a cobra – disse ele à esposa do ofídio. E foi esconder-se num jirau, dentro da casa. Assim que a cobra entrou, espichou a língua fendida e captou o odor da presença humana. – Estou sentindo cheiro de gente! – sibilou a cobra. A cobra, mesmo tendo recém comido um boi inteiro, pediu à mulher que lhe trouxesse mais comida. Ela trouxe, e a cobra comeu até empanzinar-se. Depois, pôs-se a cantarolar um canto meio hipnótico que obrigou o índio escondido a acompanhá-lo. – Eu sabia que tinha mais alguém aqui dentro! – exclamou a cobra, furiosa. O índio, aterrado, surgiu com as duas mãos espalmadas. – Calma, amigo, sou da aldeia e vim apenas para ver como estão. Mas a cobra não estava para falas mansas e abocanhou o índio inteiro. O tempo passou, e os índios mandaram um grupo de guerreiros para exterminar a cobra. Pé ante pé, eles adentraram a casa da índia e, quando a cobra dormia a sono solto, caíram de rijo em cima dela com lanças e tacapes, matando-a. A índia chorou e lamentou, mas o crime já estava feito. Ela foi levada de volta para a aldeia, aos prantos, mas o que eles não sabiam é que ela estava grávida de uma ninhada de cobrinhas, que deu à luz assim que chegou à aldeia. Quando os índios descobriram, muniram-se de cacetes para abater os filhotes, mas a índia espantou-os todos para a mata. – Vão, escondam-se na mata! Desde então, as cobras andam à solta por aí

Boca de Cobra[]

É um dos contos sobre a personagem onde fala da boca da Boiúna. falam nele que alguns estrelas sairam de sua boca

Sociedade das Serpentes[]

É um grupo formado por todas as cobras do folclore Brasileiro, vinda de contos, mitos,cordeis e afins. Elas sempre se reúnem para discurtir qual a melhor forma de proteger a natureza.

Referências[]

Veja também[]

Monstros dos lagos

Serpentes marinhas

Iaras

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