Caos (do grego Χάος, Chaos, "Casma", "Abismo") é o primeiro princípio a surgir no universo. Inicialmente concebido como puro vazio, depois passou a ser imaginado como uma confusa mistura de elementos.
Hesíodo[]
Na Teogonia de Hesíodo (700 a.C.), Caos é o Vazio, o primeiro ser a surgir no universo, depois qual (mas não dele) surgiram Gaia (a Terra), o Tártaro e Eros (o Amor), formando quatro princípios primordiais. Do Caos, nasceram Érebo e Noite.
Na tradução de Jaa Torrano:
- Sim bem primeiro nasceu Caos; depois também
- Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre,
- dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado,
- e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias,
- e Eros: o mais belo entre deuses imortais,
- solta-membros, dos deuses todos e dos homens todos
- ele doma no peito o espírito e a prudente vontade.
- Do Caos Érebo e Noite negra nasceram.
- Da Noite aliás Éter e Dia nasceram,
- gerou-os fecundada unida a Érebo em amor,
- Terra primeiro pariu igual a si mesma
- Céu constelado, para cercá-la toda ao redor
- e ser aos deuses venturosos sede irresvalável sempre.
- Pariu altas Montanhas, belos abrigos das deusas
- ninfas que moram nas montanhas frondosas.
- E pariu a infecunda planície impetuosa de ondas
- o Mar, sem o desejoso amor. Depois pariu
- do coito com Céu: Oceano de fundos redemoinhos
- e Coios e Crios e Hipérion e Jápeto
- e Teia e Reia e Têmis e Memória
- e Febe de áurea coroa e Tétis amorosa.
- E após com ótimas armas Cronos de curvo pensar,
- filho o mais terrível: detestou o florescente pai.
Ovídio[]
de Robert Fludd (1617): os quatro elementos misturados no Caos primordial
Mais tarde, Ovídio, nas Metamorfoses, identificou Caos não como o espaço vazio, mas como uma mistura primordial de elementos em uma massa indistinta:
- Antes do mar e das terras e do céu que cobre tudo
- Um só era o aspecto da natureza em todo o orbe,
- A que chamaram caos; massa rude e confusa
- E nem havia coisa alguma, exceto peso inerte, e acumuladas no mesmo lugar
- Sementes discordes de coisas não bem unidas.
- Até então, nenhum Titã fornecia luzes ao mundo,
- Nem Febe, crescendo, reparava novos cornos,
- Nem a terra pendia no ar circunfuso
- Equilibrada em seus pesos; nem os braços
- Anfitrite estendera pela longa margem das terras.
- E como havia terra ali e também mar e ar,
- Assim, a terra era instável, a água inavegável,
- O ar privado de luz: nada mantinha sua forma,
- Uma coisa obstava as outras, porque em um só corpo
- As coisas frias pugnavam com as quentes, as úmidas com as secas,
- As moles com as duras, as que têm peso com as sem peso.
Essa concepção do caos como elementos em desordem, influenciada pelo pensamento dos filósofos, foi a que prevaleceu em tempos modernos, em detrimento da concepção original como "espaço vazio". Da concepção de Ovídioa vem o uso moderno de termos como "caos" e "caótico".
Interpretação[]
O mito de Hesíodo começa com a atividade de três elementos: Caos (o abismo de trevas cósmico, que se divide em celeste - Noite e subterrâneo - Érebo), a Terra e o Tártaro nevoento, habitação sombria das sombras dos mortos. Eles ou elas geram sozinhos seres poderosos e gigantescos, até que intervém o quarto elemento, Amor (Eros), que impõe uma nova forma de reprodução, dando origem a seres mais belos, proporcionados e "humanos", dos quais os primeiros são os Titãs, artífices da primeira humanidade (a da Idade de Ouro). Um deles, Cronos, castrou o pai e tomou o poder, até ser deposto pelo seu filho Zeus. Os genitais castrados do Céu originaram Afrodite, deusa do Amor, ao passo que a Noite gerou sozinha (além de muitos outros seres punitivos e terríveis) Éris, deusa da discórdia e as Moiras, deusas do destino.
Em termos modernos, isto podria ser assim compreendido: os princípios fundamentais são o espaço vazio (Caos), a vida (Gaia), a morte (Tártaro) e a beleza (Eros), entendida como ordem e proporção (Cosmos). Os três primeiros são capazes de gerar por si, mas apenas quando a beleza do parceiro doma seus espíritos e vontade é que passam a gerar, através do coito, seres realmente belos, porque originados dessa beleza e não da vontade bruta. Só com esses seres surge verdadeiramente o amor, a luta, a evolução e o Cosmos que conhecemos.
Referências[]
https://pt.wikipedia.org/wiki/Caos_(mitologia)
- Hesíodo, Teogonia: origem dos deuses. São Paulo: Roswitha Kempf, s/d.