Fantastipedia
Advertisement

O caçador de A Companhia dos Lobos (Micha Bergese) se transforma

Lobisomem, também chamado lupisomem, labrego (propriamente, "camponês rude"), ou licantropo (do grego lukánthrōpos, de lúkos, "lobo" e ánthrōpos, "ser humano"), é um ser humano que se transforma em lobo, como geralmente se conta no folclore ou, como preferem o cinema do século XX e a arte e literatura modernas nele inspirados, uma criatura híbrida, meio humana, meio lupina. Essa condição é chamada licantropia, nome também dado a uma síndrome psiquiátrica talvez relacionada à origem do mito, o delírio ou delusão de que a pessoa afetada pode se transformar, se transformou ou é um animal. Outras especulações ligam à lenda à hidrofobia, mas deve-se observar que só em algumas variantes da lenda (e não nas mais antigas) a condição é transmitida por mordidas. Ainda menos razoável é ligar a lenda à hipertricose, pois o lobisomem só veio a ser imaginado como homem peludo pelo cinema moderno.

O homem (ou, mais raramente, mulher) que se transforma em lobo é uma concepção originada da Europa e Ásia Central, embora haja mitos análogos sobre humanos que se transformam em animais, incluindo onças (Américas), hienas (África e Oriente Médio), cães (Ásia Oriental e Sudeste Asiático) e ursos (vários continentes). Levado por colonizadores europeus a outros continentes, o mito do lobisomem às vezes tomou outras formas, notadamente em terras onde não existem lobos verdadeiros - confira, por exemplo, o Lobisomem Brasileiro.

As causas da transformação variam conforme crenças e épocas: pode ser uma maldição, um pacto com o demônio, uma herança de família ou um destino associado a uma circunstância do nascimento, como ser o sétimo filho homem em sequência ou nascer empelicado (envolvido no âmnio materno).

Geralmente o lobisomem foi visto no Ocidente medieval e moderno como perigoso, maligno ou mesmo diabólico, mas houve crenças, mais comuns nas versões mais próximas das origens arcaicas e pré-cristãs do mito, em lobisomens benignos, que se transformam para melhor lutar como guerreiros, para proteger seu povo de ameaças sobrenaturais e que foram fundadores de povos e nações.

O Lobisomem dos gregos[]

A menção escrita mais antiga ao mito se encontra na História de Heródoto, do século V a.C.: segundo ele, os membros dos Neuri ou Navari, um povo que vivia a nordeste da Cítia, se transformavam em lobos uma vez por ano durante vários dias e depois mudavam de volta para a forma humana.

Zeus transforma Licaão em lobo, gravura de Hendrik Goltzius, 1589.

Há mitos gregos relacionados a lobisomens que podem ser mais antigos, embora as referências escritas sejam mais recentes: o geógrafo grego Pausânias relatou no século II a.C. a história do rei Licaão (Lukáōn, literalmente "lobos" em grego) da Arcádia, transformado em lobo por ter sacrificado seu filho Nictimo no altar de Zeus Liceu (Lukaîos, "lupino"). Pausânias também relata a história de um homem da Arcádia chamado Damarco de Parrásia que, transformado em um lobo após provar as entranhas de uma criança humana sacrificada a Zeus Liceu e restaurado à forma humana dez anos depois, se tornou um campeão olímpico (o que faz supor que era muito jovem ao se transformar). De acordo com Pausânias, não foi um caso único e vários homens foram transformados em lobos durante os sacrifícios a Zeus Liceu desde a época de Licaão. Se eles se abstivessem de saborear a carne humana enquanto lobos, seriam restaurados à forma humana nove anos depois, mas se o fizessem, permaneceriam lobos para sempre.

A Liceia (em grego, lukaía, "lupina") era um festival anual, provavelmente no início de maio, cercado de ritos secretos nas encostas do Monte Liceu (Lukaîon Óros, "Montanha do Lobo"), o pico mais alto da Arcádia e cujo padroeiro era Zeus Liceu. Os rituais e mitos desse rito giravam em torno da possibilidade de uma transformação de lobisomem para os epheboi (adolescentes do sexo masculino) que dele participavam. O ritual era noturno, a julgar pelo nome de Nictimo (Nuktimus, de nux, "noite") do filho de Licaão morto e servido a Zeus no mito. Rumores da cerimônia que circularam entre outros gregos giravam em torno do tema do sacrifício humano e do canibalismo: de acordo com Platão, um clã particular se reunia na montanha para fazer um sacrifício a cada nove anos a Zeus Liceu e um pedaço de entranhas humanas era misturado com as de animais. Quem comesse a carne humana era transformado em lobo e só recuperaria a forma humana se não comesse novamente carne humana por nove anos.

Pausânias diz ter visto o altar para Zeus no cume do monte Liceu, sem que lhe fosse permitido assistir ao ritual. Perto do monte de cinzas onde os sacrifícios aconteciam, havia um recinto proibido no qual, supostamente, nenhuma sombra podia ser lançada. Qualquer pessoa que entrasse teria que ser sacrificada. Havia ali perto um santuário de Pã Liceu e uma caverna consagrada a Reia, mãe de Zeus, chamada Kretaia ("Cretense"), onde, segundo o mito local, Zeus nasceu e foi cuidado por ninfas. O culto envolvia também uma manifestação de Apolo conhecida como Apolo Liceu (Apollōn Lukaîos, Apolo Lupino), talvez como modelo para os efebos. Esse nome em grego não se confunde com o do Apolo Liceu de Atenas (Apollōn Lukeîos, Apolo da Lícia), uma imagem do deus baseada na forma como era adorado na Lícia que deu nome ao Liceu, o ginásio (academia esportiva e centro cultural para jovens) onde Aristóteles dava suas aulas e que originou o nome de "liceu" como sinônimo de escola secundária em tempos modernos.

Reencenação moderna dos Jogos Liceus, nas ruínas de Megalópolis, Arcádia.

Havia jogos associados à conclusão satisfatória da Liceia, depois realizados em Megalópolis, fundada em 371 a.C. para ser a primeira cidade e capital da Arcádia. Lá, o principal templo foi dedicado a Zeus Liceu, embora os árcades continuassem a sacrificar no topo da montanha até os dias de Pausânias.

Ruínas do altar a Zeus Liceu, no alto do monte Liceu.

Recentes descobertas arqueológicas revelaram que o altar no topo da montanha é muito mais antigo do que os próprios gregos clássicos pensavam. Detectou-se a presença de um ritual no local no início do III milênio a.C., mil anos antes de Zeus ser adorado na Grécia. Isso pode significar que os lobisomens originais eram cultuadores de um deus-lobo anterior aos gregos - talvez com equivalentes em outras terras, como a Cítia - depois chamado Zeus Liceu pelos árcades. Em 2016, foi encontrado ali o esqueleto de um adolescente sacrificado aos deuses, datado de cerca de 1.000 a.C. Embora nenhum outro resto humano tenha sido encontrado no monte de cinzas, de 30 metros de altura e 1,5 metro de altura apenas 7 por cento dele foram escavados até agora.

Esqueleto de jovem sacrificado no altar do Monte Liceu.

Talvez inicialmente um jovem ali fosse realmente sacrificado a Zeus Liceu e em outro período sorteado de alguma forma para servir ao deus durante nove anos e fizesse parte do culto ou da iniciação vestir uma pele de lobo e se portar como tal após o sacrifício de um animal. Isso talvez qualificasse o iniciado aos olhos de seu povo como um sacerdote, xamã, mago ou herói capaz de grandes feitos. Com o desaparecimento e esquecimento do culto, ou simplesmente a ignorância de seu significado em outras terras, teria ficado apenas a ideia do homem que se transforma em lobo por nove anos, o que fora do contexto religioso original parecia uma aberração, punição ou maldição.

O Lobisomem dos romanos[]

A Loba Capitolina. Por muito tempo se acreditou que a famosa escultura da loba era etrusca, do século V a.C., mas estudos recentes sugerem se tratar de uma escultura medieval do século XIII. As figuras de Rômulo e Remo foram adicionadas no século XV por Antonio Pollaiuolo.

Nos mitos e na religião romana, encontram-se vestígios de uma veneração arcaica a lobos ou homens-lobos. O mais notório é o próprio mito de fundação de Roma por Rômulo e Remo, dois gêmeos criados por uma loba. A eles estava relacionado o festival da Lupercália, também chamado Februa ("Purificações"), palavra de origem supostamente sabina da qual vem o nome do mês de fevereiro. Era celebrado a XV Kalendas Martias, 14 de fevereiro, na gruta de Lupercal, no sopé do monte Palatino onde, segundo a tradição, a loba amamentou Rômulo e Remo. Perto da caverna ficava um santuário de Rumina, deusa da amamentação e a figueira selvagem (Ficus ruminalis), símbolo de amamentação, para a qual Rômulo e Remo foram trazidos pela intervenção divina do deus-rio Tiberinus. O padroeiro do festival era o deus Lupercus ("Lupino"), identificado com Ínuo ou com Faunus Lupercus, este identificado com o Pã Liceu dos árcades e considerado protetor dos agricultores, da colheita e das alcateias de animais selvagens, que teria ajudado a loba a cuidar dos gêmeos.

A Lupercália tinha seu sacerdócio, os Luperci ("irmãos do lobo"), cuja instituição e ritos eram atribuídos ao herói árcade Evandro ou a Rômulo e Remo. Os Luperci eram jovens (iuvenes), geralmente de 20 a 40 anos e formavam dois collegia (associações) religiosos baseados na ancestralidade; a Quinctiliani (em homenagem à gens Quinctia) e a Fabiani (em homenagem à gens Fabia), cada uma dirigida por um mestre. Em 44 a.C., um terceiro colégio, o Juliani, foi instituído em homenagem a Júlio César.

No altar, um bode e um cão eram sacrificados por um dos Luperci, sob a supervisão do Flamen dialis, o sumo-sacerdote de Júpiter e se fazia uma oferenda de bolos de farinha salgados, preparados pelas virgens vestais. Após o sacrifício de sangue, dois Luperci se aproximaram do altar. Suas testas eram ungidas com o sangue da faca do sacrifício, depois enxugadas com lã embebida em leite, após o que deviam sorrir ou rir. Seguia-se a festa do sacrifício, após a qual os Luperci cortavam tiras (chamadas februa) da pele esfolada do animal, e corriam com elas, nus ou quase nus, ao longo do limite original de Roma demarcado por Rômulo em torno do monte Palatino, no sentido anti-horário em torno da colina. Segundo Plutarco, o jovens nobres corriam nus, se divertindo e rindo, atingindo quem encontrassem com as tiras felpudas. Muitas mulheres nobres se metiam de propósito em seu caminho e davam as mãos para bater, acreditando que a grávida seria assim ajudada no parto e a estéril a engravidar.

Celebração da Lupercália, segundo reconstrução do History Channel.

As raízes do ritual, provavelmente originado dos sabinos, e sua associação com lobos eram obscuras para os romanos, que ao se referir a lobisomens, chamados em latim de versipellis ("vira-peles"), citavam principalmente os mitos gregos. A história de Damarco foi recontada por Plínio, o Velho, que chama o homem de Demaenetus. Conta também que, na Arcádia, uma vez por ano, um homem era escolhido por sorteio dentre o clã Anthus e escoltado até um pântano da região, onde pendurava suas roupas em um carvalho, nadava no pântano e se transformava em lobo, juntando-se a uma alcateia por nove anos. Se durante esses nove anos ele se abstivesse de provar a carne humana, voltava ao mesmo pântano, nadava de volta e recuperava a forma humana, com nove anos acrescentados à sua aparência.

Ovídio relata histórias de homens que perambulavam pelas florestas de Arcádia na forma de lobos e reconta nas suas Metamorfoses o mito de Licaão, dizendo que quando Zeus o visita disfarçado de homem comum, Licaão testar se ele é realmente um deus matando um refém molossiano e servindo-lhe suas entranhas, depois do que o deus, enojado, transforma Licaão em lobo. Virgílio, nas Éclogas, escreveu sobre um homem chamado Moeris, que usava ervas e venenos do Ponto, sua terra, para se transformar em lobo. Niceros, um dos personagens de Satyricon, romance escrito por Petrônio em 60 d.C., conta sobre um amigo que se transformou em lobo (caps. 61-62): “Quando procuro meu amigo, vejo que ele se despiu e empilhou as roupas na beira da estrada. Ele urina em círculo em volta das roupas e então, sem mais nem menos, se transforma em lobo! Depois começa a uivar e corre para a floresta".

O Lobisomem dos turcos[]

O folclore turco reverencia as lendas dos lobisomens: xamãs turcos da Ásia Central, após realizar rituais longos e árduos, seriam capazes de se transformar voluntariamente em kurt adam ("lobos-homens").

Uma representação de Asena com seu filho adotivo.

Uma lenda turca conta a história de um jovem que sobreviveu a uma batalha; uma loba o encontrou ferido e cuidou dele até recuperar a saúde. A loba, engravidada pelo menino, escapou de seus inimigos cruzando o Mar Ocidental para uma caverna perto das montanhas Qocho e deu à luz dez meninos meio lobos, meio humanos. Destes, Ashina se tornou o líder e fundou o clã Ashina, que encabeçou o Império Goturco que dominou a Ásia Central e a Rota da Seda de 552 até 745. Vale notar que essa região coincide aproximadamente com a localização atribuída por Heródoto aos Neuri, embora estes sejam considerados por alguns linguistas e arqueólogos modernos como um povo báltico (os ancestrais dos turcos, na época de Heródoto, viviam nas atuais Mongólia e norte da China).

O símbolo da loba, cujo nome não era citado no mito original, mas é chamada pelos turcos modernos de Asena, foi gravado no palco do teatro pessoal do primeiro presidente da Turquia moderna, Mustafa Kemal Atatürk, em sua residência em Ancara, que também a citou em seus discursos e a fez um dos símbolos do nacionalismo turco moderno.

O Lobisomem dos nórdicos[]

Guerreiros úlfhéðnar.

Outra tradição sobre homens-lobos existiu na era Viking da Escandinávia. O rei Haroldo I da Noruega (r. 872 - 933) foi tido como Úlfhéðnar ("homem vestido de lobo"). Os úlfhéðnar são citados nas sagas Vatnsdœla, Haraldskvæði e Völsunga, e se assemelham a algumas lendas de lobisomens: eram guerreiros semelhantes aos berserkers, embora se vestissem com peles de lobo em vez de ursos. Como estes, estavam associados ao deus nórdico Odin e supostamente eram tomados em batalha por espíritos de animais selvagens para resistir à dor e lutar com ferocidade.

As tradições escandinavas podem ter dado origem aos contos eslavos de lobisomens. Em conforme O Conto da Campanha de Igor, Vseslav de Polotsk, príncipe bielorrusso do século XI, era considerado um lobisomem, capaz de se mover a velocidades sobre-humanas: "Vseslav, o príncipe, julgava os homens; como príncipe, ele governou cidades; mas à noite ele vagava disfarçado de lobo. De Kiev, rondando, ele alcançava, antes do cantar do galo, Tmutorokan. O caminho do Grande Sol, como um lobo, rondando, ele cruzou. Para ele tocavam cedo as matinas na catedral de Santa Sofia de Polotsk; mas ele ouvia os sinos soarem em Kiev".

O Lobisomem da Idade Média[]

O Capitulatum Episcopi, texto que estabeleceu a doutrina original da Igreja Católica em relação à magia, bruxas e metamorfoses, atribuído ao Sínodo de Ancira de 314, afirma que "Quem acredita que qualquer coisa pode ser transformada em outra espécie ou semelhança, exceto pelo próprio Deus, é sem dúvida um infiel".

Em A Cidade de Deus, obra do século V, Santo Agostinho de Hipona fez um relato semelhante ao de Plínio, o Velho e explica que "Acredita-se muito geralmente que por certos feitiços de bruxas os homens podem ser transformados em lobos". Agostinho também comparou os Luperci romanos com os lobisomens gregos, que se acreditava transformarem de homens em lobos ao nadar em um pântano na Arcádia. Dois séculos depois, monges irlandeses interpretaram mal Agostinho e entenderam que os Luperci eram uma antiga raça não humana. Como sabiam nadar, podiam ter sobrevivido ao Dilúvio de Noé e se refugiado na Irlanda como seres mágicos que viviam debaixo d'água nas lendas medievais irlandesas. As conexões com o lobo e a água foram depois esquecidas e os Luperci se tornaram os Leprechauns, duendes habitantes da terra do folclore irlandês moderno.

Os lobisomens foram mencionados em códigos de leis medievais, como o do rei Canuto, cujas Ordenações Eclesiásticas, do século X, nos informam que os códigos visam garantir que “… o lobisomem loucamente audacioso não devastar amplamente, nem morder muitos do rebanho espiritual. Ainda no século X, Liutprando de Cremona, historiador dos lombardos e bispo de Cremona, relatou o boato de que Bajan, filho de Simeão I da Bulgária (r. 893-927), podia usar magia para se transformar em lobo.

Um padre administrando a extrema-unção à esposa moribunda à direita enquanto o marido amaldiçoado com a licantropia está de pé à esquerda, uma miniatura de Topographica Hibernica, c. 1196-1223.

Segundo Otia Imperialia, texto de Gervase de Tilbury escrito na Alemanha em 1209-1214 para entretenimento do Imperador Otão IV, a crença em metamorfoses (ele também menciona mulheres se transformando em gatos e cobras) estava espalhada por toda a Europa. Gervase diz ao leitor que a transformação de homens em lobos não pode ser facilmente descartada, pois "na Inglaterra, vimos muitas vezes homens se transformarem em lobos". Ele parece ter sido o primeiro a associar a metamorfose ao surgimento da lua cheia, mas essa ideia raramente reapareceu antes de ser retomada pelo cinema moderno.

Outras evidências da crença generalizada em lobisomens e outras transformações de humanos em animais podem ser encontradas nos esforços de teólogos para combatê-la. Conrado de Hirsau, escrevendo no século XI, proíbe a leitura de histórias como as de Ovídio, nas quais a razão de uma pessoa é obscurecida após tal transformação. Pseudo-Agostinho, escrevendo no século XII, segue o argumento de Agostinho de Hipona de que nenhuma transformação corpórea é possível a não ser pela vontade de Deus, afirmando que "o corpo [não pode] ser fisicamente transformado nos membros materiais de qualquer animal".

No lai (poema bretão) Bisclavret de Marie de France (c. 1200), o nobre herói Bisclavret, por razões não explicadas, tinha que se transformar em lobo todas as semanas. Quando a esposa infiel roubou as roupas necessárias para restaurar sua forma humana, ele escapou de uma caçada real implorando ao rei por misericórdia e acompanhou o rei depois disso. Seu comportamento na corte foi gentil, até que sua esposa e seu novo marido apareceram. Seu ataque brutal ao casal foi considerado justamente motivado e a verdade foi revelada. Dois outros lais anônimos, Melion e Biclarel, compartilham o tema de um cavaleiro lobisomem traído pela esposa.

O termo franco-normando usado por Marie é garwulf e, segundo ela, "muitos homens se tornaram lobisomens". O termo alemão werwolf foi registrado por Burchard von Worms no século XI e por Bertold de Regensburg no século XIII, mas não aparece na poesia ou ficção alemã medieval, possivelmente porque a crença nesses seres era mal vista nesse país. Entretanto, exemplos de lobisomens na Irlanda e Grã-Bretanha podem ser encontrados na obra de Nennius, monge galês do século IX; mulheres lobisomens aparecem na obra irlandesa Contos dos Antigos, do século XII; e lobisomens galeses no Mabinogion, coletânea de textos em prosa escritos em galês medieval do século XII ao XIII.

O Lobisomem da Idade Moderna[]

No cantão suíço de Vaud, lobisomens comedores de crianças foram relatados já em 1448. O julgamento de supostos lobisomens surgiu no cantão de Valais no início do século XV e se espalhou por toda a Europa no século XVI, com pico no XVII e diminuindo no século XVIII. A perseguição a lobisomens e o folclore associado é parte integrante do fenômeno da "caça às bruxas", embora as acusações envolvendo lobisomens aparecessem em apenas uma pequena fração dos julgamentos por bruxaria. O dogma da Igreja, desde o Sínodo de Ancira, que apenas Deus teria o poder de transformar corporalmente humanos em animais, era contornado com a alegação de que o demônio podia proporcionar essa transfiguração numa forma ilusória, mas que tinha todas as aparências de uma transformação real.

Bruxo transformado em lobisomem ataca viajantes, uma xilogravura de Hans Weiditz, para Die Emeis ("As Formigas"), sermão do teólogo Dr. Johann von Kaysersberg, escrito em 1517.

As acusações de licantropia eram misturadas com as de cavalgar ou encantar lobos. Alcançaram a Livônia no século XVII e se tornariam a forma mais comum de julgamento das bruxas naquele país. O fenômeno persistiu por mais tempo na Baviera e na Áustria. A perseguição a supostos encantadores de lobos persistiu até bem depois de 1650, sendo os últimos casos registrados no início do século XVIII na Caríntia e Estíria (regiões da Áustria).

Houve muitos relatos de ataques de lobisomens - e consequentes julgamentos - na França do século XVI. Vários tratados sobre lobisomens foram escritos na França durante 1595 e 1615. Lobisomens foram avistados em 1598 em Anjou, e um suposto lobisomem adolescente foi condenado à prisão perpétua em Bordeaux em 1603. Henry Boguet escreveu um longo capítulo sobre lobisomens em 1602. Em Vaud, lobisomens foram condenados em 1602 e em 1624. Um tratado de um pastor protestante de Vaud em 1653, entretanto, argumentava que a licantropia era mera ilusão. Depois disso, o único registro posterior do Vaud data de 1670: é o de um menino que afirmava que ele e sua mãe podiam se transformar em lobos, o que, no entanto, não foi levado a sério.

Depois de 1650, a crença na licantropia desapareceu em grande parte da Europa de língua francesa, como evidenciava na Enciclopédia de Diderot, que atribuiu os relatos de licantropia a uma "desordem do cérebro". Continuou a haver relatos de criaturas extraordinárias semelhantes a lobos, mas não lobisomens. Um dos mais famosos disse respeito à Fera de Gévaudan que aterrorizou a antiga província de Gévaudan, hoje Lozère, no centro-sul da França, de 1764 a 1767.

O lobisomem de Eschenbach, Alemanha, capturado em um poço, 1685.

O interesse em lobisomens persistiu depois de 1650 no Sacro Império Romano. Pelo menos nove obras sobre licantropia foram impressas na Alemanha entre 1649 e 1679. Nos Alpes austríacos e bávaros, a crença em lobisomens persistiu até o século XVIII.

Em 1692, em Jürgensburg, na atual Letônia, uma das últimas regiões da Europa a abandonar o paganismo, um velho chamado Theiss foi julgado como lobisomem e alegou em sua defesa que seu espírito (e o de outros) se transformava para lutar contra os demônios e impedi-los de roubar grãos da aldeia. Foi condenado a dez chibatadas por superstição e idolatria.

Variantes do mito[]

Formaram-se até o fim da Idade Média várias tradições sobre lobisomens. A versão "germânica" ficou fortemente associada ao pânico da feitiçaria e à caça às bruxas. Tanto o termo franco-normando garwulf quanto o alemão werwolf, o inglês werewolf e o sueco varulv derivam do termo proto-germânico werawulfaz, de weraz,“homem” e wulfaz, “lobo”. Esse termo foi latinizado em documentos medievais como gerulphus ou garulphus e em francês moderno tornou-se garou ou loup-garou. Esse lobisomem-bruxo "ocidental", associado à bruxaria e ao suposto culto ao demônio, era encontrada na França, Europa de língua alemã e Báltico.

Outra versão, "mediterrânea", é a do lobisomem português, hombre lobo espanhol ou lupo mannaro italiano (do baixo latim lupus hominarius, "lobo humanal", que se porta como gente). Nessas regiões, a Inquisição esteve mais preocupada com caçar praticantes reais ou supostos do judaísmo, do Islã ou de heresias cristãs do que com construir um inimigo imaginário na bruxaria. A licantropia não foi, nestas regiões, identificada com o culto ao demônio, mas vista como punição folclórica a alguma violação de normas sociais mais banais ou simples má fortuna.

Uma terceira versão, "eslava", é a do vlkolak (de vьlkъ, "lobo" e‎ dolkъ, “pele”), termo às vezes também aplicado ao vampiro e associado a crenças semelhantes, às vezes misturadas. O lobisomem-vampiro "oriental" era encontrado no folclore da Europa Central e Oriental, incluindo Hungria, Romênia e Bálcãs.

No folclore húngaro, principalmente na Transdanúbia, pensava-se que a sina de se transformar em lobo surgia na infância, após abuso dos pais ou uma maldição. Aos sete anos o menino ou a menina sai de casa, vai caçar à noite e pode transformar-se em pessoa ou lobo quando quiser. A maldição também podia se originar na idade adulta, se a pessoa passasse três vezes por um arco de vidoeiro com o auxílio do espinho de uma rosa selvagem. A transformação geralmente ocorria durante o solstício de inverno, Páscoa e lua cheia.

Entre os eslavos do sul, havia a crença de que se uma criança nascesse com cabelo, uma marca de nascença ou empelicada, teria o poder da metamorfose. Embora fossem capazes de se transformar em qualquer animal que desejassem, era comum acreditar que essas pessoas preferiam se transformar em lobo. Na Sérvia, acreditava-se que os vukodlaks se reuniam anualmente nos meses de inverno, quando tiravam a pele de lobo e os penduravam nas árvores. Eles então pegariam a pele de outro vulkodlak para queimá-la, libertando da maldição o seu dono.

Na Grécia moderna, até o século XIX, existiu a crença de que os cadáveres de lobisomens, se não fossem destruídos, voltariam à vida na forma de lobos ou hienas que rondavam os campos de batalha, bebendo o sangue dos soldados moribundos. Esses lobisomens "mortos-vivos" retornariam à forma de cadáver humano à luz do dia. Para destruí-los, era preciso decapitação com espada e exorcismo pelo pároco. A cabeça seria então lançada em um riacho, onde se pensava que o peso de seus pecados a afundaria.

No folclore armênio, há mulheres que, por causa de pecados capitais, são condenadas a passar sete anos na forma de lobo. A mulher condenada é visitada por um espírito portador de pele de lobo, que ordena que ela use a pele, o que a faz adquirir um desejo terrível por carne humana logo em seguida. A loba devora cada um de seus próprios filhos, depois os filhos de seus parentes por ordem de relacionamento e, finalmente, os filhos de estranhos. Ela vagueia apenas à noite, com portas e fechaduras abrindo quando ela se aproxima. Quando a manhã chega, ela volta à forma humana e remove sua pele de lobo. A transformação é geralmente considerada involuntária, mas existem versões alternativas envolvendo metamorfose voluntária, onde as mulheres podem se transformar à vontade.

O Lobisomem da Idade Contemporânea[]

A ideia de que os lobisomens são resistentes a ferimentos comuns, mas vulneráveis a balas de prata é citada por escrito, pela primeira vez, no século XIX. Essa ideia é peculiar, pois em geral se acredita no folclore ocidental, que seres mágicos são vulneráveis ao ferro e seres demoníacos,à água benta ou a símbolos cristãos, como o crucifixo. Sua origem não está clara, mas não pode ter surgido antes de armas de fogo se tornarem comuns, no século XVII, pois a prata não é adequada a armas brancas. Como na Alemanha, onde essa crença aparentemente surgiu, os lobisomens eram vistos como demoníacos, talvez a ideia original fosse usar prata derretida de um cálice sagrado de uma igreja, como sugere uma versão da história da Fera de Gévaudan. Entretanto, nesse relato francês, a bala de prata parece não ser parte das narrativas originais do século XVIII e ter sido introduzida por romancistas que recontaram a história a partir de 1935.

Em 1840, Jodocus D. H. Temme, jurista e escritor prussiano, escreveu em Contos populares da Pomerânia e Rugen que, por volta de 1640 a cidade de Greifswald, Alemanha, foi infestada por lobisomens e "um rapaz esperto sugeriu que eles juntassem todos os seus botões de prata, taças, fivelas de cintos e assim por diante, e os derretessem em balas para seus mosquetes e pistolas, e desta vez eles massacraram as criaturas e livraram Greifswald dos licantropos". O reverendo e antiquário Sabine Baring-Gould escreveu em seu Livro dos Lobisomens, de 1865, supostamente baseado no folclore inglês: "até que o publicano disparou um botão prateado sobre suas cabeças quando (os lobisomens) foram instantaneamente transformados em duas velhinhas feiosas".

No romance Drácula de 1897 e no conto O Convidado de Drácula, ambos de Bram Stoker e inspirados no folclore da Europa oriental, o vampiro Drácula pode tomar a forma de um grande lobo durante a noite e afirma que as lendas de lobisomens originaram-se de sua linhagem racial Szekely.

No folclore europeu, o lobisomem era quase sempre de aparência totalmente animal, embora às vezes se distinguisse de um lobo comum pelo tamanho, pela inteligência ou por alguma outra peculiaridade e às vezes fosse representado em pé ou em meio à transformação. O lobisomem antropomórfico é fundamentalmente uma criação do cinema, uma vez que era necessário que fosse interpretado por atores humanos.

Henry Hull interpretando O Lobisomem de Londres, 1935.

O primeiro filme a representar o monstro foi O Lobisomem de Londres de 1935, dirigido por Stuart Walker. A caracterização era superficial, pois o ator Henry Hull não estava disposto a passar longas horas sendo maquiado. A história se baseava em um conto dos Bálcãs sobre uma planta associada à licantropia. No filme, a licantropia é transmitida pela mordida de um lobisomem, que precisa matar um ser humano a cada noite de lua cheia, a menos que as pétalas da flor de uma planta fosforescente tibetana chamada Mariphasa lupine lumina sejam usadas como antídoto temporário.

Lon Chaney interpretando O Lobisomem, 1941.

Mais marcante e influente na cultura popular de hoje foi O Lobisomem de 1941, dirigido por George Wagnner, com Lon Chaney no papel principal e uma maquiagem mais elaborada. Segundo o dístico recitado por aldeões no filme, "Mesmo um homem que é puro de coração e faz suas orações à noite / Pode se tornar um lobo quando floresce o matalobos e brilha a lua de outono" (matalobos, em inglês wolfbane, é Aconitum lycoctonum, uma erva outrora usada para envenenar lobos). Esse filme fixou a ideia de que a prata é capaz de matar os lobisomens e não só na forma de bala: no filme, o lobisomem é morto a pancadas do castão de prata de uma bengala. O primeiro filme a apresentar o efeito transformador da lua cheia foi Frankenstein Meets the Wolf Man em 1943.

Lobisomem enfrenta vampiro em Anjos da Noite (Underworld), filme de 2003.

Nos primeiros filmes, os lobisomens, representados como homens peludos, eram heróis trágicos, amaldiçoados sem culpa pela mordida de outro lobisomem, que cometem assassinatos durante suas transformações, mas tentam inutilmente lutar contra sua condição quando voltam à forma humana, até serem mortos. Outros lobisomens do cinema foram mais malévolos, como em Grito de Horror ("The Howling") e outros mais heroicos, como nas séries Anjos da Noite e Crepúsculo. Além disso, com a evolução dos efeitos especiais, os lobisomens puderam tomar convincentemente a forma híbrida de grandes homens-lobos.

Uma alcateia de lobisomens se transforma durante um banquete em A Companhia dos Lobos, 1984.

Um filme atípico de lobisomens, que se afasta das convenções do cinema dos anos 1940 foi o britânico A Companhia dos Lobos (The Company of Wolves, 1984), baseado em um conto de Angela Carter inspirado em Chapeuzinho Vermelho e dirigido por Neil Jordan. Uma adolescente chamada Rosaleen (Sarah Patterson) sonha que vive numa floresta de contos de fadas do século XVIII e que sua irmã é perseguida e morta por lobos. Enquanto seus pais estão de luto, Rosaleen fica com a avó, que lhe tricota um xale vermelho e lhe diz para tomar cuidado com os homens cujas sobrancelhas se encontram. Rosaleen mais tarde leva uma cesta de mercadorias pela floresta à cabana da avó e no caminho encontra um caçador atraente cujas sobrancelhas se encontram. Ele a desafia a encontrar o caminho para a casa da avó antes dele, chega primeiro, se transforma em lobo e a mata. Rosaleen descobre a carnificina e, confusa, fere com seu próprio rifle o caçador, que se contorce de dor e se transforma em lobo. Rosaleen tem pena da besta ferida, notando que sua matilha pode deixá-lo para trás. Ela se senta e acaricia o lobo com ternura, enquanto lhe conta uma história. Moradores da vila chegam na casa algum tempo depois à procura de um lobisomem, mas descobrem que a própria Rosaleen se transformou. Juntos, ela e o caçador escapam para a floresta e se unem a uma alcateia. Os lobos então entram no mundo real, invadindo a casa de Rosaleen e se reunindo fora de seu quarto. Rosaleen acorda com um grito quando alguém pula pela janela e joga seus brinquedos no chão, simbolizando o fim de sua infância.

O Lobisomem da White Wolf[]

Com base em fantasias pessoais do autor, Mark Rein·Hagen, e numa interpretação peculiar do lobisomem cinematográfico, o RPG Lobisomem: o Apocalipse (no original, "Werewolf: The Apocalypse"), publicado pela White Wolf Publishing desde 1992, criou uma concepção de lobisomem especialmente elaborada, apesar de deixar de lado a maior parte do folclore tradicional da Europa Ocidental e ignorar mais ainda as tradições de outras regiões. Segundo as premissas do jogo, os lobisomens, chamados, à francesa, de Garou, foram criados para defender Gaia (a Terra ou a Mãe Natureza), de uma força cósmica do caos que ameaça destruí-la, a Wyrm e outra da ordem que ameaça escravizá-la, a Weaver, em nome da Wyld, a força criativa da natureza. Entretanto, sua luta é prejudicada pelas rivalidades entre tribos, que dificultam a formação de um frente unificada e pelo processo avançado de extinção dos lobos e consequentemente de sua própria espécie.

Como no cinema, os lobisomens podem ignorar ferimentos normais, que se curam quase instantaneamente, mas são vulneráveis a armas de prata. Têm uma ligação especial com a lua, embora possam se transformar em qualquer fase. Um traço novo é que, enquanto tanto os lobisomens do folclore quanto os do cinema geralmente têm apenas duas formas (humana e lupina, ou humana e híbrida), estes podem alternar-se entre cinco formas:

  • Hominídeo (Homid no original): humano normal
  • Glabro: quase humano, um "homem pré-histórico" grandalhão, peludo e abrutalhado como os primeiros lobisomens do cinema.
  • Crinos: homem-lobo, um monstro meio homem, meio lobo, gigantesco (2,7 metros de altura), cuja simples visão põe a maioria dos humanos em estado de delírio irracional e que é a forma preferida da maioria dos lobisomens para lutar.
  • Hispo: lobo gigante "pré-histórico".
  • Lupino (Lupus no original): lobo normal

As cinco formas dos lobisomens em Lobisomem: o Apocalipse.

Idem, numa versão feminina de uma época mais antiga.

A licantropia, nessa concepção, é uma condição hereditária, que pode surgir do cruzamento de lobisomem e humano (Hominídeo na tradução brasileira, Homid no original), lobisomem e lobo (Lupino, no original Lupus) ou dois lobisomens (Impuro, no original Metis, nome dado a mestiços de indígenas e eurodescendentes no Canadá), sendo neste caso estéril e deformado. Conforme a fase da lua sob a qual nascem, têm diferentes signos ou "auspícios" que, conforme a versão brasileira, são Ragabash (lua nova, brincalhão questionador das tradições), Theurge (lua crescente, místico pesquisador das tradições), Philodox (meia-lua, juiz guardião das tradições), Galliard (lua minguante, bardo amante das tradições) e Ahroun (lua cheia, guerreiro protetor das tradições). No original, os Theurge são ligados à crescent moon entendida como fase entre lua nova e meia-lua, tanto crescente quanto minguante no entendimento dos lusófonos e os Galliard à gibbous moon, fase entre meia-lua e lua cheia, também tanto crescente quanto minguante.

As tribos de lobisomens da White Wolf

Entretanto, vêm das tribos as características mais marcantes e também mais problemáticas, pois são em parte expressões de estereótipos raciais, culturais e sociais tal como percebidos nos Estados Unidos e revelam mais do que um traço de eurocentrismo e mesmo de supremacismo branco. Aquelas que normalmente podem ser escolhidas pelos jogadores são:

  • Fúrias Negras (Black Furies): originárias da Grécia e ligadas à deusa Ártemis, são exclusivamente fêmeas e especialmente místicas e ferozes. Sem nenhuma ligação real com a concepção grega antiga ou moderna de lobisomens, se parecem mais com uma caricatura de feministas radicais representadas como amazonas que odeiam homens.
  • Roedores de Ossos (Bone Gnawers): originários da Índia e África e descendentes de chacais, embora se pareçam com cães vira-latas, são descritos como "carniceiros patéticos vivendo em meio à sujeira humana". Embora tidos como espertos especialistas em sobrevivência, refletem clichês desagradáveis sobre raças de cor e moradores de rua.
  • Filhos de Gaia (Children of Gaia): sem origem nacional explícita e, portanto, estadunidenses genéricos, são apresentados como conciliadores que se esforçam por aplacar os conflitos e rivalidades entre as demais tribos e são vistas por estas como ingênuos e fracos. Correspondem aos estereótipos sobre hippies e veganos.
  • Fianna (nome de um bando de guerreiros da mitologia irlandesa): originários da Irlanda (onde, aliás, os lobos estão extintos desde 1786), são tidos como beberrões e festeiros com veia poética, de acordo com o estereótipo do irlandês na cultura anglo-saxônica.
  • Crias de Fenris (Get of Fenris): originários da Escandinávia, incorporam um suposto ideal nórdico que é mais propriamente neonazista - e de fato, supõe-se que "algumas Crias adotaram o conceito de supremacia branca e nacional-socialismo no passado e no presente e deram ao resto da tribo uma reputação repleta de mal-entendidos e estereótipos", explicação difícil de qualificar num contexto em que os estereótipos são geralmente tratados como verdadeiros. Essa "tribo" parece imaginada para dar a simpatizantes do neonazismo a oportunidade de expressar abertamente suas ideias a pretexto de interpretar um personagem.
  • Andarilhos do Asfalto (Glass Walkers): originários da Mesopotâmia, são tidos como os lobisomens mais integrados à vida urbana e atraídos por conforto e tecnologia, o que lhes traz o desprezo de outras tribos. Sabem fascinados por armas e computadores e envolvem-se com o mundo dos negócios e com a Máfia. Correspondem a estereótipos sobre yuppies e empreendedores.
  • Garras Vermelhas (Red Talons): uma tribo formada de lobisomens lupinos, ou seja, nascidos e criados como lobos, embora possam tomar forma humana, que acreditam que a única maneira de salvar e curar Gaia é destruir os humanos. O estereótipo, nesse caso, é o do lobo mau e feroz dos contos de fadas.
  • Senhores das Sombras (Shadow Lords): originários dos Bálcãs, são tidos como arrogantes, ambiciosos e sedentos de poder, tentando impor seu domínio sobre os demais lobisomens, principalmente os aristocráticos Presas de Prata. Mais que mitos balcânicos, parecem refletir estereótipos estadunidenses sobre russos, comunistas e a União Soviética.
  • Peregrinos Silenciosos (Silent Striders): "ciganos e vagabundos vindos do Egito", de onde teriam sido expulsos por Set, supostamente um vampiro. Assim como o estereótipo dos ciganos do mundo real, são tidos como nômades praticantes de magia, que vivem à margem das outras tribos e são vistos por elas com desconfiança.
  • Presas de Prata (Silver Fangs): governaram terras em toda a Europa e "apenas recentemente perderam o poder que acumularam durante séculos na Rússia, sua terra natal". São descritos como nobres "conhecidos por sua beleza física, coragem e honra que representam tudo que há de melhor nos Garou", descendentes de raça relativamente pura dos lobisomens originais. "Embora ainda imponham respeito às outras tribos, sua linhagem enfraquece com o tempo e a reprodução inter-racial". Sua concepção, baseada nos preconceitos da nobreza do século XIX, revela preconceitos eugênicos e racistas de forma ainda mais explícita que a dos Crias de Fenris.
  • Portadores da Luz Interior (Stargazers): considerada uma tribo pequena, de menos de 500 integrantes, fundada por um certo Klaital Starcatcher que "veio dos confins do mundo" e converteu outros lobisomens à sua filosofia de serenidade, harmonia e consciência, cultivando uma arte marcial chamada kailindô em vez da selvageria dos lobisomens tradicionais. Obviamente, baseia-se em estereótipos sobre os povos do Leste Asiático.
  • Uktena (nome de uma grande serpente chifruda da mitologia dos Aniyunwiya ou Cherokee, o mais numeroso dos povos indígenas dos EUA, originários do sudeste e depois expulsos para o Oklahoma): originários do sudeste dos EUA e da 'América Central' que depois recrutaram escravos africanos e outras minorias oprimidas, cultivam conhecimentos proibidos e magias e segredos sombrios temidos pelos demais lobisomens. O estereótipo reflete os vagos receios da maioria branca dos EUA de povos dominados que mantém costumes e tradições ancestrais, bem como a repulsa à miscigenação que perpassa toda a concepção de universo do jogo.
  • Wendigo (nome de um espírito malévolo análogo ao Anhangá brasileiro da mitologia dos Algonquinos, povo indígena do Quebec e Ontário no Canadá e da região dos Grandes Lagos nos EUA): originários do Canadá, são vistos como fiéis às raízes, ferozes e orgulhosos e correspondem ao estereótipo do "indígena puro", nobre selvagem apegado a costumes e rituais e inimigo incondicional dos invasores brancos.

Além dessas, há três tribos desaparecidas, lembradas para ressaltar o risco de extinção que paira sobre lobos e lobisomens:

  • Croatan (nome de um povo indígena relacionado aos algonquinos, do qual ainda há uns poucos remanescentes na Carolina do Norte): originários do vale do Mississipi e costa leste dos EUA, teriam se sacrificado num ritual coletivo para adiar o Apocalipse, como bons indígenas que fazem o favor de sair do caminho para facilitar a conquista.
  • Bunyip (nome de uma criatura aquática ameaçadora do folclore australiano, comparável ao Ipupiara brasileiro): originários dos aborígenes australianos, foram destruídos por lobisomens europeus invasores da Austrália e desapareceram ainda antes do tilacino ou lobo-da-Tasmânia (extinto em 1936) no qual se transformavam, embora esse animal fosse um marsupial sem nenhum parentesco com os lobos verdadeiros.
  • Uivadores brancos (White Howlers): originários dos pictos, povo da atual Escócia assimilado por invasores gaélicos no século X, teriam sido dominados pela Wyrm e transformados em Dançarinos da Espiral Negra (Black Spiral Dancers), seres inimigos dos lobisomens, ainda no século II.

Estranhamente (ou sintomaticamente), não há no jogo tribos de lobisomens da América do Sul, embora existam canídeos que, embora não sejam lobos propriamente ditos, têm ao menos algum parentesco real com eles, ao contrário do lobo-da-Tasmânia. A África, que tem lobos propriamente ditos além de chacais e outros canídeos nativos, mal é mencionada. A Ásia, com uma considerável população e variedade de lobos verdadeiros (para não falar de humanos) e de outros canídeos ainda nos dias de hoje, não está nem de longe satisfatoriamente representada, embora mais tarde tenha sido acrescentada uma tribo especificamente japonesa, a Hakken (literalmente "oito cães", alusão a uma novela épica japonesa chamada Nansō Satomi Hakkenden, "Crônicas dos oito cães de Satomi de Nanso"), mesmo se os lobos estão extintos nesse país desde 1905.

As cinco formas dos Nuwisha

Em outra ampliação do universo do jogo, foi criado um povo de humanos-coiotes, chamado Nuwisha, concebidos como diferentes dos lobisomens e com uma missão distinta, embora lobos (Canis lupus) e coiotes (Canis latrans) sejam espécies similares e os chacais, análogos do coiote na África (Canis adustus e Canis mesomelas) e Eurásia (Canis aureus), sejam tratados como parentes dos lobisomens. No mundo da White Wolf, enquanto os Garou são guerreiros, os Nuwisha são astutos, curiosos e trapaceiros, conforme a figura do coiote no folclore indígena da América do Norte. Não possuem "auspícios", nem existem humanos-coiotes "impuros", mas possuem as mesmas cinco formas dos lobisomens, com nomes diferentes: Hominídea (humano normal), Tsitsu (homem grande e peludo), Manabozho (híbrido gigante), Sendeh (coiote gigante e agressivo) e Latrani (coiote normal).

Veja também[]

Teriantropo

Lobisomem Brasileiro

Pieira dos Lobos

Fera de Gévaudan

Fera de Chaves

Referências[]

https://www.facebook.com/donfoca/photos/a.257704940952542/1559045237485166

  • Wikipedia: Werewolf [1]
  • Wikipedia: Therianthropy [2]
  • Wikipedia: Clinical lycanthropy [3]
  • Wikipedia: Neuri [4]
  • Wikipedia: Lykaia [5]
  • Wikipedia: Lycaon of Arcadia [6]
  • Skeleton 3,000 years old lends credence to claims of Ancient Greeks sacrificing humans [7]
  • Wikipedia: Lupercalia [8]
  • Wikipedia: Lupercus (mythology) [9]
  • Wikipedia: Romulus and Remus [10]
  • Wikipedia: Asena [11]
  • Wikipedia: Kurt adam [12]
  • Wikipedia: Berserker [13]
  • Wikipedia: Werewolf of London [14]
  • Wikipedia: The Wolf Man (1941 film) [15]
  • Wikipedia: The Company of Wolves [16]
  • Angela Carter, “The Company of Wolves” [17]
  • Wikipedia: Werewolf: The Apocalypse [18]
  • White Wolf Wiki [19]
  • Wikipedia: Nansō Satomi Hakkenden [20]
Advertisement